Cooperativa de crédito em Goiás adota ERP aberto e corta custos
1.200 associados, um sistema que travava, e uma migração que pagou a si mesma em quatro meses.
A cooperativa fica em Anápolis, a 50 quilômetros de Goiânia, e atende 1.200 associados — a maioria pequenos comerciantes e agricultores familiares da região. Quando entrei na sala da diretoria, em maio, o assunto não era política de crédito. Era um sistema que travava no fim do mês. A conversa que ouvimos ali, na sala com ventilador de teto, é o centro desta reportagem.
O problema de sempre
A cooperativa usava um ERP fechado havia nove anos. O custo subia todo ano, o suporte respondia em dois dias, e todo fechamento de mês virava correria. “A gente pagava caro para esperar”, resumiu a gerente de operações. Era um sentimento comum em cooperativas de crédito pequenas do Centro-Oeste: contratos longos, pouca negociação, ferramenta que não se adapta ao jeito local de trabalhar.
A virada veio de um associado, não de um consultor. Um comerciante do setor de informática propôs testar um ERP aberto, mantido por uma comunidade de desenvolvedores. O custo de licença caía para zero; o custo de mão de obra para migrar ficava por conta de um time pequeno, formado por dois funcionários da cooperativa e três voluntários do próprio quadro de associados.
A migração passo a passo
O time começou em fevereiro. Primeiro, paralelamente ao sistema antigo, montou o novo com dados reais — sem mexer no que estava em produção. Depois, mês a mês, migrou um processo de cada vez: primeiro o cadastro, depois o caixa, por fim o crédito. A regra interna era clara: nenhum associado podia ficar sem atendimento por causa da migração.
O detalhe que mais chamou atenção foi a formação. Os voluntários ensinaram o novo sistema aos funcionários em sessões de uma hora, dentro do expediente, sem terceirizar a capacitação. A cooperativa saiu da migração com cinco pessoas capazes de manter o sistema — algo que o contrato antigo não oferecia.
A conta no papel
Em quatro meses, a economia de licença paga a mão de obra da migração. A partir do quinto mês, tudo é economia líquida. A cooperativa decidiu reinvestir metade da economia em um fundo para projetos digitais dos próprios associados — decisão votada em assembleia.
O ponto que mais interessou a comunidade não foi o número. Foi a sensação de dono. “Antes, quando dava problema, a gente abria chamado e esperava. Hoje a gente abre o código”, disse um dos voluntários. Essa virada de postura é o centro da história — mais até que a economia.
O que fica
A reportagem não conclui que todo mundo deva trocar sistema. Conclui algo mais útil: que cooperativa pequena pode escolher tecnologia como escolhe qualquer outro insumo, com conta na ponta do lápis e formação dentro de casa. E que, quando a comunidade participa da migração, ela também vira dona da solução.